Nothing Lasts Forever

quarta-feira, 25 de agosto de 2010



"Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.

Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.

- Não acaba nunca, e pronto.

- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.

- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

- Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

- Acabou-se o docinho. E agora?

- Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim."

Medo da Eternidade - Clarice Lispector



A discursão sobre essa crônica na aula de Português de hoje foi o que me fez postar esse texo aqui. Mas uma vez, este não era o tema que eu tinha escolhido para o mu post, mas eu costumo fazer as coisas que tenho vontade de fazer antes que me arrependa de não ter feito. Enfim, o texto trás uma reflexão sobre a eternidade. Me pergunto se todas as coisas duram para sempre... Será que isso seria bom?

Eu não quero viver para sempre, pensar nisso assusta. Do mesmo jeito que não acredito que as coisas durem para sempre, ora, que graça tem alguma coisa se você sabe que ela nunca vai acabar? As coisas eternas acabariam perdendo a importância, a singularidade, se tornaria uma coisa monótona e chata. Uma vez li a frase: "Aprendi que amores eternos podem acabar em uma noite", será isso verdade? Eu continuo acreditando que tudo termina, mais cedo ou mais tarde. A vida é passageira para o nosso bem, afinal, qual é a graça de dar infinitas voltas ao mundo a pé pela eternidade?

Uma pessoa na sala disse que a eternidade tira o valor das coisas. Concordo com ela. Eu prefiro saber que tenho uma vida passageira - e por isso tenho que aproveitar todas as coisas antes de bater as botas - do que saber que com o tempo o chiclete docinho vai se desgatar e virar uma coisa sem sabor, encômoda, sem fim.

Aproveitar todas as coisas boas ainda é meu lema, e quando, inevitavelmente, elas chegarem ao fim, eu saberei que as terei vivido da melhor maneira que possível. Escolhi a foto por compreender que o futuro está nas nossas mãos. Somos nós quem decidimos se as coisas valem ou não a pena, sendo assim, você faz sua eternidade.

See you,
Gutto S.

3 comentários:

Confused S. disse...

Clarice Lispector é ótima, mas eu nunca tinha lido essa crônica. E eu também acho que as coisas não teriam graça se fossem para sempre. E como sempre (-q) ótimo texto, Gutto. ;*

Unknown disse...

Concordo com absolutamente tudo o que vc disse aí, Gutto. Realmente, o peso da palavra eternidade assusta muito, mas ao mesmo tempo encanta. Como eu nunca a vivi, fico deslumbrada com o que ela pode significar em nossas vidas e com tudo ela pode nos proporcionar. Ao mesmo tempo isso me causa medo.
Mas, no mundo em que estamos hoje, viver por toda a eternidade não valeria a pena. Viver para ver o fim do nosso planeta não vale a pena.
Há algum tempo atrás a morte me assustava, eu sentia uma coisa muito ruim quando pensava que um dia iria morrer. Mas, hoje em dia, não temo a morte, muito pelo contrário, me sinto feliz de saber que irei encontrar o meu Deus e terei vida eterna ao seu lado. E a eternidade nesse contexto não me assusta nem um pouco. ;)
Ps: O texto está mais que perfeito. bjs :*

Gutto S. disse...

Cida, obrigado por ter comentado *-* Vamo atualizar seu blog que eu quero ler suas idéias também (: Bjs.
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Lari, muito obrigado por estar sempre acompanhando meus posts. Acho que você entende esse post melhor que os outros já que você também estava na aula e viu tudo o que expomos sobre esse assunto assustador. haha.

Beijos <3

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